Fim dos tempos

Publicado em: 31/08/2011

Houve um tempo, entre a infância e a adolescência, em que dei para torcer pela grande sorte de testemunhar o fim do mundo. Queria estar ali, ser um espectador do juízo final, embora não contasse muito com as trombetas e o veredicto crucial que um ente superior daria aos mortais, como rezava o texto bíblico. Naquela altura, não estava claro o que motivava tal anseio. Sempre fui introvertido, de poucas palavras, nem dado a rompantes, nem a projetos radicais, e menos ainda a extremismos de qualquer natureza. Mais tarde, percebi que aquela pequena obsessão tinha a ver com o medo da morte e com os rituais que cercam essa certeza, a única que nos resta.

Claro, descobri, o espetáculo final seria uma oportunidade de escapar do momento fatal e, quem sabe, ser alçado aos céus (será?) sem dor e sofrimento. Se todos terão um fim, por que não ver com os próprios olhos o desfecho de tudo, desde que haja, como nas telenovelas, um epílogo satisfatório, que agrade o gosto médio do público?

No tempo em que coloquei essa ideia na cabeça ainda não sabia que o mundo poderia de fato acabar pelo impacto de um grande meteoro, ou engolido por um buraco negro, ou esturricado pela desintegração do Sol, ou… Bom, sem falar naquele botão que alguém um dia apertará, mandando tudo pelos ares.

Terremotos, tsunamis, vulcões, um novo dilúvio? E as guerras, a fome, as doenças, a insegurança que cresce a cada dia? Bem, alguém dirá, violência existe desde que o mundo é mundo, ou pelo menos desde o advento do homem, nessa pequena quadra do tempo em que nos encontramos.

Calendário maia, filmes de catástrofes, malucos comandando rebanhos cegos pela ignorância, tudo conflui para a banalização do tema. Nada a ver com a ingênua expectativa da minha infância-juventude, em que o fim dos tempos era uma abstração, uma ideia difusa, uma divagação em meio ao torpor dos estudos e da pouca distração daqueles dias.

Hoje, aquele pensamento foi trocado por outras dúvidas, por outros dramas, e talvez por uma acomodação que é natural na medida em que os anos correm e é preciso, além de sobreviver, pensar na dor de coluna, no controle dos carboidratos, nos pneus carecas, no sofá envelhecido. E, se sobrar tempo, em manter os poucos amigos que resistiram, sabe-se lá por que razão.

Os cataclismos, os cometas em rota de colisão com a Terra, as catástrofes naturais são objeto de leitura, de curiosidade, de eventuais reportagens para o fim de semana. Tudo em nome do pragmatismo que dita o nosso cotidiano.

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