Flávio, Maurício e a chegada do Papai Noel

Publicado em: 14/12/2008

O Papai Noel chega a Porto Alegre, com toda a pompa e circunstância devida, em uma tarde de sábado, dia 17 de dezembro de 1955. Vem descendo das nuvens em plena Redenção, o mais emblemático e democrático dos parques da capital gaúcha. Tão democrático que ladeia a Avenida Oswaldo Aranha, nos lados do Bonfim, o bairro dos judeus e, em um ângulo reto, pela José Bonifácio, os espaços deixados pelas copas das árvores permitem entrever as torres de duas igrejas católicas. O bom velhinho acena, sorriso aberto – Ho! Ho! Ho! – e traje impecável, escolhido a dedo por Vicente Rao, o eterno Rei Momo da cidade, que, neste final de semana, empresta corpo e performance a este símbolo natalino.

O trenó paira no céu, por instantes, algo estatal: um helicóptero do governo do Rio Grande do Sul. As renas são hélices a girar numa brisa crescendo em vento, em ventania. Crianças há em grande número, sejam elas de famílias cristãs, judaicas, agnósticas, descrentes… Seja lá o que pensam ou acreditam.

Chegam a 50 mil na estimativa da Folha da Tarde, parceira da promoção. E, graças aos microfones da Rádio Difusora Porto-alegrense, a festa espraia-se, horizonte hertziano ao longe. Satisfeitos, um católico e um judeu esfregam as mãos. São dois dos mais inventivos – e espertos – profissionais de comunicação do estado: Flávio Alcaraz Gomes e Maurício Sirotsky Sobrinho.
Aquela festa em que Vicente Rao desponta em meio à gurizada envolve, de fato, um dos mais lucrativos negócios em termos de promoção da época.

A idéia de Flávio, como ele mesmo lembra em suas memórias, tinha sido, rapidamente, encampada por Maurício que sugeriu um patrocinador, a Walgás, o novo gás de cozinha há pouco lançado no mercado para concorrer com outras marcas já tradicionais. O total dos custos estimado pela dupla: 20 mil cruzeiros.

– Vendemos por 30 mil e ganhamos 5 mil cada um – Pensaram de início os dois.

Com tal disposição, foram ao diretor da Walgás:

– Imagine, doutor Hercílio. Papai Noel descendo dos céus e materializando o sonho da criança que vive em cada um de nós, enquanto em coro os meninos cantam Noite Feliz…

– Que maravilha, que maravilha! E quanto custa? – Pergunta o empresário quase em êxtase para Flávio, numa inspiração monetariamente divina, responder:

– Cem mil cruzeiros, doutor.

Maurício, em choque, chega a empalidecer – “Porra, mais de três vezes o combinado!” –, mas os prós em relação aos contras contam mais e o doutor Hercílio, põe fim aqueles segundos de aflição, dando um morro na mesa:

– Negócio fechado!

Resultado final: 40 mil cruzeiros no bolso de Flávio e 40 mil cruzeiros no de Maurício. Para cada um, o dobro do gasto na brincadeira toda.

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