Luzes na escuridão: o rádio e a família

Publicado em: 29/07/2007

Juntamente com a colega Carol Denardi, estarei lançando no dia 2 de agosto o livro “CBN Diário: uma luz no apagão”. O lançamento será às 19 horas, no Espaço Cultural Jerônimo Coelho, na Assembléia Legislativa de Santa Catarina. A obra foi editada pela Insular e Associação Catarinense de Imprensa-Casa do Jornalista, com o apoio da Associação Catarinense de Empresas de Rádio e Televisão -ACAERT.
Por Ricardo Medeiros

O dia faz-se noite em 29 de outubro de 2003. Não há luz elétrica na Ilha de Santa Catarina. As famílias voltam-se para as velas e os mais saudosistas improvisam uma pomboca, uma lamparina à base de querosene. Não há televisão nem internet e em breve a bateria do celular vai terminar.

Todos se reúnem no mesmo espaço: pai, mãe, filhos, avós, tios, amigos. Num primeiro momento todos reclamam da energia elétrica que teima não retornar. Mas aos poucos estão envolvidos em boas conversas. Um balanço do dia é feito por cada membro da família: o que aconteceu no trabalho, na escola, em casa, na vizinhança. A criançada com os olhos arregalados ouvem as histórias gostosas contadas pelos mais velhos. Mulas sem cabeça, bruxas e outros personagens passam a povoar o imaginário da molecada.

E a luz quando volta? Para saber das “últimas” a família liga o rádio, agora movido por pilhas, disputadas a um preço majorado na venda ou no armazém da esquina. O “moço” da Rádio CBN Diário informa tudo sobre o blecaute na Ilha, que deixa quase 300 mil habitantes às escuras.

A população se manifesta. O ouvinte Gualberto Mendes dá uma dica: “por que não é decretado feriado na cidade?” Surge uma outra idéia nas ondas da CBN. Michele Martins, do Centro de Recuperação Desafio Jovem o Bom Samaritano, sugere que as pessoas façam doações para entidades de caridade dos alimentos guardados em geladeira ou freezer, antes que estraguem.

Uma dona de casa liga para a emissora em busca de ajuda. Ela procura um local para fazer nebulização em seu filho. Um policial militar está sintonizado na CBN e dá o retorno para a mãe angustiada indicando um estabelecimento com gerador para a senhora levar o seu pequeno no Norte da Ilha. A ouvinte Priscila quer saber se vai haver aulas no município e logo dirigentes municipais, estaduais e do ensino fundamental são colocados no ar para orientar os estudantes.

O apagão avança a quinta-feira, dia 30. Repórteres cobrem tudo sobre as reuniões da Celesc com demais órgãos para avaliar e resolver o blecaute. A polícia militar usa o rádio para tranqüilizar a população, para dizer que reforçou a segurança pública. Que tudo esta sob controle, que não haverá saques em estabelecimentos comerciais e residências. Que todos os policiais de folga foram chamados para atuar na missão apagão. A área da saúde faz um apelo: “dirijam-se de preferência aos hospitais da região continental e só procurem essas unidades em caso de emergência”.

A luz acaba a água também. O tempo em que os florianopolitanos ficam sem luz é o suficiente para originar outros problemas. Há falta de água em conseqüência da queda de energia. Fica prejudicado o bombeamento no reservatório de água que abastece a Ilha e parte do Continente. Espaço aberto na rádio para a Casan.

O blecaute na Ilha de Santa Catarina inicia às 13h15 de quarta-feira, dia 29 de outubro, e se estende na região central até as 11 horas, de sexta-feira, dia 31. São 46 horas sem luz. O bairro Trindade e áreas do Norte e Sul da Ilha só vão ter energia elétrica perto das 20 horas. Motivo da escuridão: rompimento de um cabo de transmissão de energia de elétrica , em uma das galerias da Ponte Colombo Salles, devido a  um incêndio.
Enquanto a luz elétrica não vem outras luzes se acendem. É a retomada dos bons tempos, longe das tecnologias habituais, a não a ser a do rádio. A sala de estar ou varanda estão cheias. Alguns dizem: “agora somos de novo uma família. Não precisamos repartir nossa atenção com outras coisas e afazeres. Adeus novela da TV, orkut, celular. Estamos aqui presentes de corpo e de espírito. Viva a escuridão que nos proporciona outros clarões”.
O rádio emoldura a mesa sobre uma toalha de renda; pousa quem sabe sobre a cama ou uma cadeira de balanço. Mas ele está lá: sintonizado na CBN Diário. A emissora, por sua vez, utiliza-se das ferramentas do rádio informativo, realizando transmissões ao vivo durante quase 55 horas ininterruptas. A estação aprofunda e confronta idéias e orienta o público, além de conceder voz para a população.
Todo esse clima é narrado por mim e Carol Denardi em “CBN Diário: uma luz no apagão”. Anote aí o lançamento: dia 2 de agosto, quinta-feira, às 19 horas, no Espaço Cultural Jerônimo Coelho, na Assembléia Legislativa (SC). Até lá.

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