Mães de hoje

Publicado em: 12/05/2011

Passei o domingo na companhia de alguém a quem devo grande parte das virtudes que tenho e a quem isento de culpa pelos defeitos que trago pela vida a fora. Eu entrei com o peixe e o camarão, ela trouxe seu sagu inigualável, hors concours, apreciado até fora do âmbito restrito da família. À sua força devemos, eu e minhas irmãs, não só os princípios, as noções de retidão e honestidade, mas a própria integridade do núcleo familiar, que ela manteve com suor, lágrimas e determinação. Porém, as belas horas passadas com ela me convenceram de que algo estranho vem afetando as mães do mundo.

Para minha incredulidade, elas são sempre jovens, sorriem o tempo todo, têm filhos bonitos e saudáveis, ostentam uma carreira bem sucedida e um invejável poder de consumo. Compram apartamentos de luxo, andam em carros importados, usam os melhores perfumes, viajam na primeira classe. E têm um corpo perfeito (sei lá o que isso quer dizer!), uma vida emocional estável, enfim, representam o modelo acabado de sucesso e realização

As mães de hoje são felizes, exibem dentes impecáveis, cabelos sedosos, pele bronzeada e roupas de boas grifes. Têm dois filhos – um menino e uma menina – e um marido sarado e atencioso. Usam computadores de última geração e fazem um cruzeiro diferente a cada ano. Têm um cachorro com pedigree, estão nas redes sociais, acompanham as notícias internacionais e criticam com argumentos irrefutáveis as medidas açodadas no governo no combate aodesequilíbrio fiscal.

As mães de hoje não trabalham demais, não ganham a vida em subempregos, não precisam cuidar de filhos levados, não se incomodam com os riscos da violência e das drogas, não são abandonadas por companheiros covardes e preguiçosos. E não esquentam a barriga no fogão, não estragam a coluna no tanque, não lavam a roupa dos outros para ganhar um troco, não fazem faxina de dia para comer à noite. As mães de hoje não perdem o sono se o filho vai mal na escola, se está perdido no crack, se ficou sem emprego, se está deprimido por causa do salário ou do casamento.

Olhando para minha mãe, que deu duro na roça e na cozinha e que ainda hoje, quase aos 75, ainda cultiva uma horta e um pomar de fazer inveja, percebo a estupidez dos que consideram mães apenas as jovens senhoras de 30 anos para baixo – porque as outras, para os departamentos de marketing ou publicidade, não são comercialmente vendáveis. Ainda bem que não comprei um presente caro: ela sorriu com sinceridade ao receber as flores que lhe dei no seu dia.

0 respostas

Deixe uma resposta

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *