Maluf sepulta a esquerda; Lula leva a coroa de flores?

Publicado em: 27/06/2012

selo-apontamentosA esquerda brasileira adoeceu quando o recém-eleito presidente Lula se achega a Sarney (expoente civil da ditadura) em nome da governabilidade, pífia desculpa – soube-se cedo – para a permissividade aqui instalada. Desde então seu estado de saúde só piorou por sepultar todo e qualquer tipo de postura republicana em suas atitudes. Com o autor de “Marimbondos de Fogo” havia Maluf (outro baluarte do regime de exceção) e pronto: o braço civil da ditadura renasce forte em Brasília. Como era de se esperar, Sarney, aos poucos, de modo quase imperceptível, vai desidratando a esquerda dos anos 1960 que assumira visando concretizar a utopia do novo Brasil. A culminância desse processo se deu na semana passada: com sorriso de vampiro da Transilvânia Maluf sepulta a utopia gestada na resistência aos anos de chumbo. Ao lado, como quem manda coroa de flores, Lula sorria a autossuficiência que se tornou peculiar ao incorporar o espirito dos caudilhos sul-americanos.

Quanta ironia: Paulo Maluf, trambiqueiro caçado pela Interpol (noviça rebelde do Colégio Eleitoral que elegeu Tancredo e ungiu Sarney) ri por último: a oficialização da morte (falecera no Mensalão) da esquerda tupiniquim encerra o processo com raízes no golpe que levou os comunistas russos ao poder. Ou seja, o acordo do PT com Maluf para eleger Fernando Haddad (intelectual respeitado que vira atônito candidato sem voz nas mãos de Lula), mata aqui também a utopia em busca do homem novo. Apesar de morta no Leste Europeu, na África, na Ásia, no Caribe e outras partes da América Latina, no Brasil a utopia teimava em nutrir sonhos. Pois é, agora se foi.

(Haddad acha em Maluf resposta para sua perplexidade? Em 2008 indagou: “Se o socialismo real fez água, se a revolução não está disponível; se a socialdemocracia do ocidente industrializado mostrou seus limites e se o neoliberalismo não oferece uma alternativa à altura: o que resta à América Latina para o século XXI?” Restou Maluf?)

Emblemático, ainda, o local para as exéquias: o jardim de Maluf. Ali a utopia da esquerda servirá de adubo orgânico para o projeto pragmático da direita? Disse a grande imprensa que foi Maluf quem insistiu para que o registro fotográfico do acordo fosse na sua residência. Quis deixar claro para o Brasil que foram “os caras dessa esquerda que me azucrinou, que me acusou de tudo e mais um pouco, que me procuraram pedindo apoio”. Embora os sociólogos de plantão apelassem até para Antônio Gramsci e Paulo Freire para explicar o acordo Luiza Erundina e Marta Suplicy não tiveram estômago.

O caso desse pacto assombroso de Lula e Maluf é dramaticamente tão perverso que obriga a duvidar de que algum dia o Brasil mudará. Ao longo do jogo político lá em cima Sarney sempre fez qualquer negócio, Maluf também e agora, Lula, aluno aplicado, vem fazendo qualquer negócio. Por que eu devo crer que algo poderá mudar?

O fato nos remete a outra questão intrigante: por que as esquerdas se submetem com tanta facilidade aos encantos da tal de direita que sempre abominam?

E por que figuras como Sarney e Maluf se perpetuam exercendo grande poder com tanta facilidade independente de quem governa: esquerda, direita, civil ou militar?

Ivaldino Tasca, jornalista | [email protected],br

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