Meio Cidadão

Publicado em: 25/01/2006

Da janela do seu quarto, João vê uma movimentação estranha no apartamento em frente. Logo percebe que o imóvel do vizinho foi arrombado e dois homens empilham TVs, aparelhos eletrodomésticos e roupas. São três horas da tarde. Indignado, João liga para a Polícia.
Por Léo Saballa

Fica satisfeito quando vê os policiais rapidamente em ação, no momento em que a dupla se prepara para fugir carregando o produto do roubo. Devidamente algemados, sem tiro nem correria os dois são levados até à delegacia para o devido inquérito policial e todos os trâmites legais que a situação exige. Em seguida toca o telefone do João e um policial pede que ele vá até à delegacia do bairro para confirmar o que viu. Um procedimento necessário. Afinal, é ele quem está denunciando os gatunos.
Naquele momento, João se considera um verdadeiro cidadão que procede de forma racional, evitando que um crime aconteça e protegendo o patrimônio de um trabalhador, apesar de nem conhecer direito os moradores daquele apartamento. Sabe que a banalização da violência não permite mais estas atitudes politicamente corretas. A maioria das pessoas faz de conta que nada vê. Quanto menos envolvimento, menor é o risco. Mas, João segue a sua consciência. Agora Pega a bicicleta e pedala até o distrito. Um atendente pede que ele aguarde um pouco porque o delegado está ocupado.
Já passam das oito da noite e João está cansado, com sono e nem almoçou. Trabalhou na fábrica até às 13 horas e ainda é obrigado a ficar quase cinco horas sentado num banco de delegacia. Quando reclama, recebe um tratamento de delinqüente.
– Eu já falei que o delegado ta ocupado, rapaz. Se encher o saco de novo, mando te prender – troveja um comissário com cara de sono.
Em seguida, João vê a dupla de larápios passar por ele, na companhia de um advogado e do delegado. Eles riem como se tivessem ouvido uma piada. Na saída, o delegado aperta a mão de cada um e se despede com um: “vão com Deus”. Quando vê João, o delegado resmunga: “vou jantar e depois te atendo”.
Por volta das 23 horas a testemunha finalmente consegue sair da delegacia depois de responder a um verdadeiro interrogatório. Perguntaram se ele era consumidor de drogas e se já esteve preso. João chega em casa, toma banho, escova os dentes, faz a barba e volta para o trabalho, sem dormir, nem comer. Sente-se meio cidadão e meio otário. Um brasileiro completo.


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