Morrer de Prazer – Crônicas da vida por um fio

Publicado em: 09/06/2013

Escritos de Ruy Castro testemunham desfile de paixões do autor, “mas em nada se assemelham a uma autobiografia”, ele diz

Álvaro Costa e Silva *

Ruy Castro em sua casa, no Rio. Daniel Marenco/Folhapress

O “eu” era proibido no computador de Ruy Castro. Biógrafo de Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmen Miranda, ele não admitia a intromissão da primeira pessoa na hora de retratar a vida de alguém: “Na biografia, o autor não existe. É apenas um vidro entre o leitor e o personagem”.

Com a produção de textos mais leves, híbridos de crônicas e colunas de opinião, publicados na página 2 da Folha, Castro não teve escolha: “A crônica pede a primeira pessoa”.

Um Ruy Castro com pronome pessoal assumido é a matéria do livro “Morrer de Prazer: Crônicas da Vida por um Fio”, que chega agora às livrarias.

A editora Isa Pessoa, da carioca Foz, percebeu que nesses textos mais íntimos havia um denominador comum: o apelo a viver a vida de maneira intensa, sem medo de perder nem de ganhar.

São pequenos ensaios confessionais e memorialísticos. “Mas que em nada se assemelham a uma autobiografia, gênero no qual não confio”, esclarece Ruy.

O livro, em cuja capa o autor aparece mordendo um cacto, apresenta um desfile de paixões: literatura, música, mulheres (encontros com Claudia Cardinale, Natalie Wood, Kim Novak, Odete Lara). E, no texto que dá título à coletânea, uma “lista de melhores filmes de todos os tempos”, que só vai até 1968, com “2001: Uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick.

“Há quem não aceite o fato de eu não gostar do cinema feito depois dos anos 1970. Mas ninguém se incomoda quando alguém diz que, para ele, música só até Beethoven, ou que, em literatura, é melhor parar no Proust porque a vida é curta”, conta.

Aos 65 anos, brinca: “Só recentemente tomei conhecimento da minha idade”.

O relato das doenças, e de como ele as enfrentou, impressiona: primeiro um infarto, depois um câncer na garganta, na base da língua (cujo tratamento deu-se ao mesmo tempo em que escrevia a biografia “Carmen”, em 2005), que o obrigou a largar o cigarro –mas não a coleção de cinzeiros.

No Carnaval do ano passado, sofreu um ataque de encefalite viral; ao cair no chão e convulsionar, fraturou o ombro direito, a sequela mais grave, tratada até hoje com sessões de fisioterapia. “Bola para frente”, diz ele, que toca em segredo projetos para três livros.

* Colaboração para a Folha. Sábado, 8 de junho de 2013

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