O espírito dos Natais futuros

Publicado em: 24/12/2012

Luli Radfahrer *

Crenças religiosas à parte, é inegável que os festejos da virada do ano se transformaram bastante nas últimas décadas. “Não se fazem mais Natais como antigamente”, reclamam por aí, embora ninguém possa dizer ao certo a que época se refere um costume tão mestiço e metamórfico. Do sacrifício de crianças no Festival da Saturnália, passando pela rave que marcava o solstício de inverno no hemisfério norte, adaptado para um possível aniversário de Jesus Cristo (que só receberia presentes doze dias depois), o Natal ainda ganhou árvores coloridas de gosto duvidoso em grandes centros urbanos, iluminou fachadas com lâmpadas chinesas e foi parar em festas de escritórios em que inimigos declarados assumem o papel de amigos secretos.

Séculos mais tarde, o desapego de São Nicolau transformou o Natal em premiação de comportamento infantil. Ao imigrar para os Estados Unidos sem papelada, o pobre velhinho sofreu as humilhações de praxe: é chamado de Santa, tem sua roupa tingida de Vermelho para agradar aos patrocinadores, encara subemprego em jornada dupla nos tronos de shoppings, é espremido em lareiras, recebe prazos de entrega impossíveis, administra sweatshops de elfos e dirige um trenó sem proteção climática em que abusa de renas mutantes cheias de personalidade.

Por mais que a semiótica do festejo seja esquizofrênica, é certo que a época de fim de ano é sempre uma boa oportunidade para reunir famílias, relembrar vexames, palpitar a respeito da vida alheia, torrar o décimo terceiro, aumentar o peso e lotar salas de espera de psiquiatras. Ela já foi mais popular em tempos menos conectados, uma desculpa socialmente aceita para reencontrar pessoas que o cotidiano fez o favor de afastar. Saudosistas e nostálgicos reclamam do isolamento coletivo proporcionado pelas telas múltiplas, talvez sem levar em conta que o mundo digital possa trazer a resposta perfeita para quem não aguente mais o frenesi consumista que esvaziou a alegria da festa.

Mercados de pequenos comerciantes e artesãos, como ebay e etsy, por exemplo, substituem as antigas feirinhas de Natal, hoje mais parecidas com camelódromos de bugigangas chinesas. Pinterest e comunidades de projetos ressuscitam o espírito “faça-você-mesmo” entre os habilidosos, que podem encontrar ali várias dicas para decorar suas casas, embalar presentes e até fazer árvores a partir de material reciclado. Facebook, Skype, WhatsApp, Viber e diversos aplicativos minimizam o custo das conexões e aproximam parentes e amigos em chamadas e videoconferências. Portais de receitas ajudam a diversificar o cardápio e repositórios de músicas podem desempoeirar a trilha sonora. Os mais católicos podem acompanhar o Papa pelo Twitter e até ver a Missa do Galo via streaming.

Se a época o estimula a contribuir para uma causa, considere a Wikipédia. Eu contribuo para ela todos os anos e acredito que não faço mais do que a obrigação, considerado o benefício que ela me traz. Como ela, inúmeras causas merecem a atenção, boa parte delas apresentada em serviços de financiamento coletivo, como Kickstarter e Catarse, aonde se pode encontrar de projetos de recuperação de ambientes públicos até iniciativas em microbiologia e astronáutica.

Quem se incomodam com o lixo eletrônico gerado pelos novos aparelhos pode se engajar nas comunidades de reparo e reciclagem, contribuindo para que as máquinas sejam cada vez mais abertas e modulares. De qualquer forma, os novos aparelhos tem a grande vantagem de serem multipropósito. E-books e aplicativos, ao contrário de livros e brinquedos, não são embalados, transportados ou armazenados.

E isso é só o começo. Impressoras 3D e movimentos de código aberto permitirão, nos próximos anos, que cada um seja capaz de baixar, manipular e imprimir seus próprios enfeites e presentes, reciclando-os quando não forem mais usados. Talvez este seja, em um futuro próximo, o momento em que estejamos mais próximos do verdadeiro espírito natalino.

* Luli Radfahrer é professor-doutor de Comunicação Digital da ECA (Escola de Comunicações e Artes) da USP há 19 anos. Trabalha com internet desde 1994 e já foi diretor de algumas das maiores agências de publicidade do país. Hoje é consultor em inovação digital, com clientes no Brasil, EUA, Europa e Oriente Médio. Autor do livro “Enciclopédia da Nuvem”, em que analisa 550 ferramentas e serviços digitais para empresas. Mantém o blog www.luli.com.br, em que discute e analisa as principais tendências da tecnologia. Escreve a cada duas semanas na versão impressa de “Tec” e no site da Folha.

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