O pão do dia

Publicado em: 22/02/2012

O homem fecha o portão, dá alguns passos, para, confere a quantas anda a obra de um prédio em construção no lado oposto da rua, e segue em frente. Tem pouco a ver com os novos empreendimentos da redondeza, não frequenta lan houses, não é dado a sex shops, não manda roupas para a lavanderia, não vê qualquer serventia na loja de informática. No máximo, a padaria – e era o que estava fazendo naquela manhã. Saíra às 8h para comprar pão, companheiro de todas as jornadas, ele e a mulher, também lá pelos 65, sorvendo seu café e aquela massa arredondada e quentinha que substituiu os velhos pãezinhos de fubá tostados no forno a lenha.

A via outrora tranqüila, de lajotas e moradores nativos, é hoje um burburinho só, com suas oficinas mecânicas, escolas de idiomas, postos de gasolina, as casas dando lugar a edifícios de 12 andares, e gente saindo das garagens com carros importados – nada a ver, reflete, com os fuscas e opalas dos seus anos de juventude. Ele também não se sente à vontade com os meninos de rua, com os usuários de crack, com os pedintes que vez por outra batem à sua porta. É uma fauna que ele, educado à moda antiga, não imaginava encontrar um dia na cerca da casa onde criou os filhos de acordo com os ditames da religião, dos bons costumes, da moral rígida que herdou dos pais nascidos pelos lados de Águas Mornas.

Dentro de casa, ainda traz a capelinha de Nossa Senhora, o rosário pendurado na parede, a foto do casamento na igreja do bairro, os filhos sendo batizados pelo vigário da paróquia. É das antigas, admite, mas não se envergonha disso, embora também não alardeie as virtudes que tem e nem detrate os defeitos alheios. Não tem diploma, mas não chega ao ponto de assistir a esses programas dominicais de auditório, que depõem contra a dignidade de quem tem um cadinho de bom gosto.

Carnaval, parada gay, Réveillon – esses excessos mundanos não estão no seu calendário.Quando volta da padaria, a sacolinha de pão na mão direita, sabe que um ato sagrado vai outra vez se consumar. A mulher, mãe de seus filhos, estará com tudo pronto, e a mesa terá uma decoração ainda farta – melado, mel, o queijo colonial comprado na Festa do Colono e a morcilha que aprendeu a admirar quando ia com os pais para o interior, pelas bandas de Taquaras ou Vargem do Braço. Já não enxerga bem, escuta pouco, anda com alguma dificuldade, maldiz o reumatismo, mas tem seus caprichos e não abre mão daquilo que gosta, herança de um passado que foi duro, mas bom e prazeroso.

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