O quanto a leitura é tímida no Brasil

Publicado em: 25/07/2013

Adicionando esforços à retaguarda legal, podemos tornar nossas bibliotecas pontos turísticos, pontos de encontro, pontos de exclamação. Pelo bem do maior bem de um escritor, o leitor.

Ana Lavratti

Foto: Fátima Damaceno

No Dia do Escritor, quero me curvar, em reverência a todos os magos da imaginação e da metodologia, que aproximam nossa vida do conhecimento. De palavra em palavra, desvendei saberes. De frase em frase, descortinei emoções. De livro em livro, sou o que sou: escritora intermitente; leitora sempre. Porque ler, para mim, é oração. Não abro mão.

Na companhia de um livro, ganho consolo, cumplicidade e o melhor convívio comigo mesma. Então imaginem o meu lamento, ao ler! – o quanto a leitura é tímida no Brasil. Mais de meio século após a instituição do Dia do Escritor – vitória do incansável João Peregrino Júnior e do amado Jorge Amado – os brasileiros leem, em média, quatro livros por ano, e só chegam à última página de dois deles. Entre as poucas obras adquiridas estão a Bíblia e livros didáticos. Possivelmente lidas como dever de casa e não por prazer em casa!

De acordo com a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do ano passado, a penetração da leitura no país caiu de 55% em 2007 para 50% em 2012. Para o levantamento, foram entrevistadas mais de 5 mil pessoas, alfabetizadas ou não, e os dados não deixam dúvidas: enquanto cresce a fidelidade à TV (de 77% para 85%, entre 2007 e 2012), a associação entre tempo livre, escrita e leitura é cada vez mais rara. Diminuiu de 21% para 18%, no primeiro caso, e de 36% para 28% no segundo, considerando-se a leitura de obras impressas e de textos na internet.

Outro retrato dramático produzido pela pesquisa denuncia o crescente desinteresse pelas bibliotecas, onde 70% do público é formado por estudantes. Em Florianópolis, apesar de iniciativas corajosas pró-leitura, como o projeto Floripa Letrada, a Barca dos Livros e a Feira do Livro da Câmara Catarinense do Livro – três acervos que integro com particular orgulho – ainda existe um hiato entre os autores baseados no Estado e as guardiãs da nossa história.

A Lei nº 11.074/1999 define que as editoras deveriam remeter um exemplar de cada publicação que executarem para a Biblioteca Pública do Estado. E a Lei nº 8.759/1992 estabelece a obrigatoriedade da aquisição de livros de autores catarinenses, pelo Estado, para municiar as Bibliotecas Públicas Municipais. Adicionando esforços à retaguarda legal, podemos tornar nossas bibliotecas pontos turísticos, pontos de encontro, pontos de exclamação. Pelo bem do maior bem de um escritor, o leitor.

2 respostas
  1. eno josé tavares says:

    A IDOLATRIA AO LIVRO DEVE TER SIDO UM DOS MEUS PECADOS INFANTÍS…

    No uiverso de menino pobre,onde livros eram jóias raríssimas, na verdade, proibitivas para uma criança curiosa, que com veneração e preocupação pensava que os personagens tomariam corpos, e, nos buscariam para seus retiros, no enredo da obra… Aos sete anos tive acesso à CARTILHA ANALÍTICA, manual dos alunos do primeiro ano primário. Quando na primeira fase do processo de alfabetização, consegui assustado, extasiado e encantado, ouvir minha própria voz infantil ainda, a verbalizar aqueles garranchos tipográficas, em frases, depois em períodos, até formar um texto com princípio, meio e fim, de uma histórinha de um menino que juntamente com a alfabetização, decifrou as armadilhas de ver as horas em um velho relógio de parede com caracteres em algarismos romanos… Feito heróico para um menino com deficiência visual muito forte (era necessitado de um óculos corretivo, mas os pais não tinham recursos nem para a consulta). Tal situação, somada com outras deficiências, fez do pequeno ente um guerreiro que o levou a ter as melhores notas, nos quatro anos de ensino fundamental… E isso tudo, graças à modesta biblioteca infantil do Grupo Escolar… Então,a conclusão óbvia: leitura é um ato extraordinário, mas, hoje ainda é preciso, que um ou uma Divino Semeador/Semeadora,venha às periferias espargir às mãos cheias, livros, livros, livros…Para que,de suas páginas,saltem personagens que sirvam de modelos, às nossas criancinhas tão carentes de um norte na vida…Livros: instrumentos da transformação das gentes…

  2. eno josé tavares says:

    AS PLAQUINHAS DE ARGILA, DO “SITIO DO PÉ DA SERRINHA”

    nos cruéis anos da Década de “40”,tinha eu lá meus quatro anos de idade,quando meus pais resolveram fugir ,às agruras dos racionamentos de guerra,e,produzir seus e de seus filhos,alimentos básicos de sobrevivência.Saimos do Morro da Carvoeira ,e, pela mesma estrada de terra da época,chegamos ao Pé da Sérrina-Trindade,onde hoje é Cidade Universitária…Belissimo lugar…Um rio murmurejante mas de índole temperamental:quando chovia muito ,nos penhascos do Morro da Cruz,os bolões de pedra descendo as serranias,retumbavam tétricamente,como os tambores da macumba do Nego Alfredo…Mas algo faltaca…Descobri uma jazida de argila,na encosta da Picada da Serrinha e com esse material ,e, a ajuda do forno barroco,onde ,assim, como se assavam roscas de polvilho,pão de milho com inhame, e, se torrava café sombreado na forma de grãos,queimava sorrateiramente as plaquinhas das minhas “artes plásticas”…Não sendo ainda alfabetizado,captava no entanto,as feições humanas,as imagens dos animais e uma e outra forma de árvore…Eram as minhas mais óbvias inscrições inspiratórias…Alfabetizado ,no primeiro semstre dos meus sete anos,passei a escrever nas plaquinhas de barro,minhas histórias pessoais,de sacaninha enxerido…Até que meu pai descobriu,que eu reproduzira uma cena erótica, do Pároco com uma Filha de Maria…Vociferante,punitivo e violento,quebrou minha”página”de um livro alexandrino ,e ,jogou-me os cacos ao rosto…Por certo a minha primeira experiência com a “Odiosa Censura”.Dali em diante,até virmos morar na Rua Encantada Duarte Schutel,jurei que nunca mais pegariam, minhas primitivas manifestações,com tanta facilidade…Foi a partir dali,que começamos a praticar o tradicional “pasquim”e o que é conhecido hoje como grafitagem,com carvões de lenha e tintas tiradas do sumo de amoreiras,botões de flores aquáticas ,e, água forte de barro vermelho…Quando hoje,falam em Biblioteca de Alexandria,queimada por inimigos do Reino,vejo que instintivamente,produzí “páginas de livros”semelhantes a outros de mais de dez mil anos atrás.Então…Está no sangue de todos,uma ânsia enorme das pessoas, em se comunicarem”por escrito”,seja a época que for,o grau de cultura, e ou, o material disponível…As inscrições do Costão do Santinho,e outras por esse mundo afora,são manifestações de uma arte imortal…A Literatura ao nível de quem a produz…Dessa fase feita”…a arte deve ir ao povo,onde ele estiver…”Concluindo…Não é contra a literatura ,que os déspotas investem?”E daí nascem os esbirros…

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