Olhando as estrelas

Publicado em: 06/05/2015

A maior prova de que há menos vivência de poesia no mundo é que quase ninguém mais olha as estrelas.

Repare, caro leitor ou ouvinte, que falo em vivenciar a poesia, não apenas em escrever versos, bons ou de pé quebrado, inspirados ou lamentáveis, assaz melosos ou lamentavelmente ideologizados. Vivenciar é mais que isso, é viver plenamente com a inteira, a completa essência de nosso ser.

Pois bem, para ter essa vivência, talvez nenhuma visão seja melhor que a das estrelas.

Como sabemos, e muitos de nós lamentamos, vivemos emparedados. Nossas janelinhas de imensos edifícios, quando muito, nos concedem uma pequena nesga de céu. Quando pelo menos isso temos, lá estão elas, como diamantes de luz no estojo de veludo negro da noite. Então, se nossa alma é poética, vivenciamos a poesia em estado puro, ao olhar para aqueles brilhantes pontos de luz na imensidão do céu.

Quando, por um desses acasos, uma dessas armadilhas do bem que o destino às vezes nos prepara – uma viagem à noite por uma estrada escura, uma estada numa casa ou num hotel distante da cidade, por exemplo – nosso coração poético dispara quando olhamos para o manto das estrelas, que está sempre a nos cobrir, mesmo na profusão de luzes da cidade, mesmo quando chove, mesmo quando nossa pressa desvairada em busca do “ter” nos impede de “ser”. As estrelas estão lá, dando-nos a dimensão poética que, acredito, exista bem no âmago de todos nós, até naqueles em que essa dimensão fica soterrada pelas camadas e camadas de maldade, indiferença e ódio existentes nos mais terríveis celerados, nos mais sanguinários assassinos, nos mais desprezíveis corruptos, aproveitadores ou traidores.

Quem olha estrelas com os olhos da alma se transforma. Se houver silêncio, então, é possível escutar a inimitável sinfonia dos astros. O poderosíssimo, e aparentemente contraditório, som do silêncio se apodera de nós, transformando-nos em igualmente silentes e boquiabertos espectadores, capazes de, como disse Bilac, ouvir estrelas.

O espetáculo das estrelas é variado: algumas são imensas, num exibicionismo sem par. Essas estrelonas brilhantíssimas parecem ser uns faróis propositalmente feitos para chamar nossa atenção, provocar nosso olhar, fazendo-o refém dessa imensa beleza construída de pontos de luz.

Há estrelas comuns e discretas. Parecem estar ali simplesmente conscientes de seu papel de normalidade estelar, enchendo o céu e formando o lindo bordado brilhante que tanto nos encanta.

Existem ainda as estrelas pequeninas. Ah, estas particularmente me fascinam. Parecem tão frágeis, tão humildes, contendo a beleza singela e irresistível de todas as coisas pequenas. Quase não se mostram. Qualquer nuvenzinha faz com que elas desapareçam aos bilhões, deixando um imenso espaço negro na bela renda iluminada do céu.

A luz das estrelas também varia: umas têm luminosidade firme, desafiante; outras exibem brilho intermitente, como a chamar nossa atenção em piscadelas, como faziam os namorados, tempos atrás, quando ainda havia quem namorasse às piscadelas, ou, dizendo melhor, quando ainda predominavam os namorados, e não os “ficantes”.

Os astrônomos, os astrofísicos, os meteorologistas e outros cientistas de olhos permanentes na abóbada celeste não lerão esta crônica, como está fazendo você, prezado e paciente leitor. Se o fizerem, vão me desculpar pela imprecisão lírica, pela sem cerimônia poética, pela ausência de objetividade científica com que trato seus “astros”. Afinal, estrelas de poesia são feitas da matéria inefável dos sonhos, da substância imponderável do cismar, usada por aqueles cuja alma é capaz de pôr-se em sintonia com a amplidão, em contato íntimo com a essência da beleza.

Benditos todos os que, hoje mesmo à noite, usarão seus olhos e almas para olhar as estrelas.

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