Padrinhos

Publicado em: 29/12/2010

Paulo Clóvis

Querida, não é por causa do Natal, nem por conta do livro que estou mandando, apenas achei que era a hora de dizer algumas coisas. Você teve a sorte de herdar a inteligência e o extremo senso ético de seus pais, mas não escapou do azar de herdar, sem o direito de escolha, padrinhos de meia pataca. Lembro de quando, pequena, ainda lhe dávamos presentes, você não gostava de roupas, queria brinquedos, e dizia isso na nossa cara. E de que falava para os colegas de escola da madrinha, especialmente, com o carinho que todos os afilhados têm – porque, afinal, padrinhos são seres especiais, ou deveriam ser.

Pois aqueles tempos, que já eram de presença esparsa, foram se tornando tempos de ausência, a ponto de chegar à frieza, à indiferença, anos mais tarde.

Quando sua mãe me ligava para alguma coisa, eu me lembrava de você, e às vezes perguntava, constrangido, como está a menina, vai bem na escola, essas coisas. “Está lendo Nietzsche”, me disse ela um dia. E você só tinha 12 anos!

Depois, seu pai me chamou para trabalhar com ele, e pensei: agora vamos nos reaproximar. Que nada, continuamos distantes, você lendo os clássicos, eu escrevendo releases. Às vezes, um encontro, um abraço, mas eu sentia que o tempo avançara e que o estrago era irremediável. Seus pais, sempre com mil atribuições, e nós, com mil desculpas mal arrumadas.

Se serve como consolo, você não é a única que perdemos pelo caminho. Há um menino na mesma situação, com o agravante de ser sobrinho, que também ficou esquecido num canto, e vai crescendo com a suspeita de que padrinhos também podem ser maus, ou inúteis, ou insensíveis.

Agora, você devorando os russos, mando esses quatro volumes de “Guerra e paz”, em formato de bolso, porque não encontrei outra edição. Lamento pelo papel simples, mas pelo menos cada livro não vai pesar muito, se você gosta de ler deitada…

Podes continuar pedindo livros, que é o que tenho o prazer de presentear.

Agora, na universidade, um mundo se abrirá – e, embora você seja mais madura que muitos veteranos, vai aprender, entender melhor a vida e as pessoas, no que elas têm de grandioso e de mesquinho.

Mesmo nesta página incolor, fria, impessoal, quero dizer que você é especial.

Não se esquive de sofrer quando for preciso, nem de ser feliz quando lhe for dado esse privilégio. E seja tolerante com os que não têm o seu QI, com os que veem o mundo pela ótica do oportunismo – e com os padrinhos sem pedigree. Você está acima de todos eles!

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