Profissão ‘manja tempo’ – os seres nativos de uma Ilha Encantada

Publicado em: 12/11/2011

Na década de 195 (entre 1954 e 1957, mais ou menos) a Marinha de Guerra do Brasil promoveu durante um ano atividades de levantamento oceanográfico e topográfico do Litoral Sul Brasileiro. Foi a bordo de uma das embarcações, que imaginativo ou gaiato oficial cartógrafo, produziu um perfil da Ilha Encantada, também conhecida como Ilha de Santa Catarina. A trezentas e poucas milhas náuticas de Leste para Oeste (alto mar para terra firme), ele desenhou uma figura que se assemelhava, com a exatidão de uma bem elaborada careta, de uma bela mulher, de longos cabelos esverdeados e um corpo de escultural deitando-se languidamente, no Litoral Catarinense. 

Imaginativo, mais para erótico de que imaginativo, a dita sereia tinha a cabeça no norte, onde estão as elevações mais suaves da Ilha; a “barriga de tanquinho”, onde é a planura do aeroporto de Florianópolis e as magníficas pernas para o sul, onde o Maciço do Sul da Ilha se divide no Trevo da Seta, com elevações a Leste e outras a Oeste…

Tempos depois, mais íntimo com o  interior da Ilha Encantada, comecei a notar certas figuras exóticas nas então aldeias pesqueiras que se espraiam pelo litoral. Eram personagens que passavam seus dias acocorados e baforando um extenso ”paieiro de mio” e  curtindo “alguns tapas nos beiços” da cristalina caninha caiana dos dezesseis engenhos da Ilha. Curioso e impertinente, perguntei a um dos intendentes, quem eram aquelas figuras, pois em cada pico de costão, já tínhamos os Vigias ou Olheiros da Tainha ou da Anchova.

– Óia, óia, óia Seu Minino Chefe de Mininos… o ‘Manja Tempo tem mais otoridade que eu… Sem ele não sai embarcação, não sai pareia de pesca, pois é ele que sente quando vem tribuzana du suli, papo amarelo du norte e essa pestilenta lestada…

O Manja Tempo e o Olheiro, na divisão da pesca de rede embarcada ou de arrasto na praia, além de respeitados, eram os mais compensados na partilha…

Muitos dos nossos Escoteiros do Mar de Florianópolis com suas visões urbanas de meninos de cidade tiveram ali uma inesquecível lição de organização social e política de nossas aldeias de pescadores; e apesar de conhecerem as aldeotas rurícolas da Ilha Encantada acrescentaram mais esse conhecimento que certamente lhes faltava no cabedal de conhecimentos de sua terra e sua gente.

Na verdade, as histórias de Bruxas e Homens da Capa Preta vinham da cotidiana  atividade pescadora e rural. Pois, de pomboca na mão e intensamente agasalhados nas noites frias da Ilha Encantada – flagelada muitas vezes por ventos gelados e hostis – a figura encapuzada ostentando um lume tremelicante, bem poderia se confundir com a  assustadora imagem fantasmagórica das bruxas para quem não estivesse muito bom das pernas e da cabeça, depois de alguns “martelinhos da marvada”…

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