Quem sabe o mal que se esconde nos corações humanos?

Publicado em: 21/05/2006

Uma gargalhada aterradora, por contraditório que pareça, fazia a alegria das tardes infanto-juvenis de 1944 em Porto Alegre. A voz cavernosa de Saint-Clair Lopes ecoava nos receptores, perguntando: – Quem sabe o mal que se esconde nos corações humanos? Para ele mesmo responder: – O Sombra sabe… ah-ah-ah-ah-ah!.  Por Luiz Artur Ferraretto

Bastava isto para cativar a atenção dos jovens ouvintes pela próxima meia-hora. O radioteatro atingia, assim, também o público infanto-juvenil graças a gravações em acetato oriundas do centro do país e patrocinadas por multinacionais.
Ao estilo do que já ocorria nos Estados Unidos, O Sombra associa-se a outros produtos culturais, como as histórias em quadrinhos. Irradiado pela Farroupilha para todo o Sul do país, o seriado constituía-se em uma vantagem competitiva proporcionada pela então recente ligação da PRH-2 com os Diários e Emissoras Associados, de Assis Chateaubriand.


O Sombra na revista O Lobinho.

Patrocinado pela Gillete, O Sombra estréia, na capital gaúcha, às 19h do dia 6 de julho de 1944, precedido de algumas reportagens publicadas no Diário de Notícias. O seriado já fazia sucesso há seis anos no rádio dos Estados Unidos. No Brasil, era transmitido pela Tupi, de São Paulo, e pela Nacional, do Rio de Janeiro. Junto com a Farroupilha, também a Rádio Clube de Pernambuco, de Recife, começou a irradiar as aventuras do milionário Lamont Craston. O jornal dos Associados faz ampla publicidade de O Sombra:
“Esse personagem tão temido, entretanto, é um homem de carne e osso como todos nós, mas como nenhum de nós possui um poder sobrenatural: há muitos anos na Índia, ele conquistou, através do ocultismo, a invejável faculdade de se tornar invisível – prendendo os inimigos no mais flagrante delito, não raro empenhando-se em brigas perigosíssimas para si e para quem conhece sua noiva, a linda Margot Lane, a única aliás que conhece o segredo de o Sombra. Esse homem de carne e osso não é outro senão Lamont Craston, jovem rico e elegante, possuidor de excelente ilustração e praticante de esportes como todo bom americano”.


O Sombra em versão pulp.

Além da frase inicial, o alter ego de Craston recorria a outros bordões como “O crime não compensa” e “As sementes do crime produzem frutos amargos”. Nos anos 30, o Sombra tornou-se o primeiro grande herói dos pulps, publicações populares típicas da época da depressão econômica posterior à quebra, em 1929, da Bolsa de Valores de Nova Iorque. Em abril de 1931, a Street & Smith publicava a primeira novela policial do personagem criado por Walter B. Gibson, que assinava as estórias com o pseudônimo Maxwell Grant. Na versão radiofônica norte-americana, iniciada em 1937, Orson Wells interpretava o Sombra. No Brasil, a estréia do seriado foi precedida da publicação das novelas originais pelo Suplemento Policial em Revista e das histórias em quadrinhos por O Lobinho. Isto, ainda, no início da década de 40. O seriado começou a ser transmitido pela Nacional no dia 16 de novembro de 1943.


Saint Clair Lopes.

A força do personagem era tão forte e o bordão “O Sombra sabe” ficaria tão marcado na mente de centenas de ouvintes, que, mais de três décadas depois, em 1979, José Lewgoy encarnaria uma versão tupiniquim-escrachada. Na Rede Globo de Televisão, a novela de Bráulio Pedroso, Feijão Maravilha, homenageando as chanchadas da Atlântida, fazia uma caricatura do velho Sombra dos anos 40, relembrando também as dezenas de vilões interpretados por Lewgoy no cinema. A versão nada autorizada do herói – um bandido misterioso, mas algo atrapalhado – teve por mérito, pelo menos, trazer de volta, de 16 de março a 9 de agosto daquele ano, a aterradora voz do Sombra, tornando, mais uma vez, popular o bordão, afinal:
– O Sombra sabe… ah-ah-ah-ah-ah!


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