“Vi pouco a Cultura”, diz presidente da TV

Publicado em: 16/05/2010

*Laura Matos

Recém-eleito para o cargo, João Sayad confunde o “Cocoricó” com o “Vila Sésamo”, principais programas da emissora. Ex-secretário da Cultura diz que saber pouco da programação e de TV “pode ser uma vantagem’: “Estou mais aberto à criatividade” .

“Esse é o Vila Sésamo”, disse à Folha João Sayad, 64, novo presidente da TV Cultura, ao ver foto do “Cocoricó”, principal programa da emissora. Para quem não sabe, “Vila Sésamo” tem também uma versão produzida pela Cultura.

Diante da confusão, Sayad, que antes de ver a foto não sabia se “Cocoricó” era desenho ou programa de bonecos, admitiu pouco ver a TV Cultura. “Não fiz a lição de casa. Preciso ver mais.” Argumentou que “isso pode ser uma vantagem”. “Posso ser mais aberto.”

Por enquanto, o único plano mais concreto que tem para programação é uma premiação dos piores da TV aberta.

“Podemos eleger a pior novela, o pior programa de auditório. É uma forma de discutir televisão.”
Ex-secretário de Estado da Cultura de São Paulo, Sayad afirmou que irá se concentrar em problemas jurídicos e financeiros da instituição. Após a entrevista com a Folha, na quinta-feira, ele se despediu do prédio da secretaria. Em junho, assume a emissora. Leia trechos da entrevista.

FOLHA – O que houve na eleição da Cultura? Soube que o sr. havia ligado para Paulo Markun [então presidente] dizendo que ele seria candidato único, mas, após uma semana, anunciou que o sr. iria concorrer.

JOÃO SAYAD – Foi muito desgastante. Fiquei chateado de ter criado esse desgaste ou ser parte desse processo. Sou amigo do Markun, é um profissional respeitado, prefiro não tocar nisso. Já passou. As coisas em política, a nível pessoal, podem ser muito tensionantes. O ideal para mim é passar para frente.

FOLHA – O que o sr. acha de o presidente da TV Cultura ser sempre alguém indicado pelo governador?

SAYAD – É contradição de toda organização autônoma que depende de verba do governo.
FOLHA – A contradição seria atenuada se o repasse estatal caísse?

SAYAD – Imagina se o presidente da Cultura vai querer que o repasse diminua! A fundação tem uma receita de R$ 200 milhões, e vem do Estado R$ 85 milhões. É muito importante. Se o conselho quer mais autonomia, isso precisa ser tratado juridicamente. É uma fundação pública de direito privado, ambiguidade com custos altos na Justiça trabalhista.

FOLHA – O sr. acha que a TV deveria ser mais independente do Estado?

SAYAD – Deveria ter autonomia maior, mas não consentida, e sim definida na organização jurídica e financeira. Discutirei com juristas e conselho a organização jurídica, que cria dificuldades nas relações trabalhistas. Dissídios são fixados, mas têm de ser aceitos pelo Codec [Conselho de Defesa dos Capitais], que fixa a política salarial do governo. Se não forem, a Cultura não pode pagar, isso vai para a Justiça. É um passivo trabalhista que cresce e atrapalha.

FOLHA – Há medo de demissões.

SAYAD – É uma preocupação que tem todo o meu respeito. Falam em números entre 1.700 e 2.100 funcionários. Os representantes dos sindicatos acham que há inchaço, o que é surpreendente. É um problema a ser analisado.

FOLHA – Quando estava no governo, o sr. criou o contrato de controle à TV Cultura. Como vê isso agora?

SAYAD – A Cultura precisa se comprometer com o conselho e com um dos maiores financiadores dela [o governo] com um programa de trabalho.

FOLHA – O sr. critica o jornalismo.

SAYAD – O jornalismo tem que ser bom. A Cultura persegue a ideia mítica de jornalismo público. Há jornalismo privado?

FOLHA – O sr. diz que discursos de sustentabilidade e cidadania são vazios. Afastará isso da emissora? Acabará, por exemplo, com programas como “Repórter Eco”, “Ecoprático”?

SAYAD – Palavras na moda perdem o significado. Não quer dizer que farei programa poluidor. Não conheço esses programas profundamente. Para julgar um programa, antes do estilo ou formato, se trata de ecologia ou não, tem de saber se é bom, tornar claro o critério de avaliação, com atributos como audiência, repercussão, pioneirismo, custo. Dizem que uma das forças da TV é estabilidade da programação. Não pode ser manipulada com urgência e subjetividade.

FOLHA – O sr. assiste à Cultura?

SAYAD – Tenho agora assistido.

FOLHA – O que tem visto?

SAYAD – Uns documentários. Vi pouco. Ainda não fiz a lição de casa, vou ver mais.

FOLHA – E a programação infantil?

SAYAD – A Cultura tem tradição e talento especial para isso e devemos prosseguir.

FOLHA – Como fica a questão do “Cocoricó”, que, apesar de ser o principal programa, tem uma equipe sem vínculos com a emissora?

SAYAD – O “Cocoricó” é desenho ou de bonecos?

FOLHA – Bonecos, é esse aqui [repórter mostra foto do “Cocoricó”].
SAYAD – Esse é “Vila Sésamo”.

FOLHA – Não, é “Cocoricó”.

SAYAD – É a mesma cara. Acho que foi copiado do “Vila Sésamo” [risos]. Bom, sobre a equipe, não posso dar resposta. É um problema que espero começar a entender.

FOLHA – O fato de o sr. não ser de TV, de não saber se é “Cocoricó” ou “Vila Sésamo”, não é um problema?

SAYAD – Pode ser vantagem. Espero reunir bons profissionais. Posso ouvir a todos e ser mais aberto à criatividade.

*da Reportagem local da Folha

0 respostas

Deixe uma resposta

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *